Caras mosqueteiras (amigas, na verdadeira acepção do termo):
Apesar de não me parecer que eu seja, tecnicamente, considerado um novilho, uma vez que não passei em frente à varanda do reitor na passada quarta-feira, estou-me pouco borrifando para isso. Apeteceu-me escrever isto e nem quero saber se ainda sou caloiro, também já decidi que não trajo e essa era a única razão pela qual a praxe me parecia “necessária”…
A verdade é que estou um pouco perturbado. Acho genial o que tenho lido e ouvido acerca do assunto “praxe e julgamento” nestas minhas últimas (?) semanas de caloiro.
Primeiro, vamos analisar a questão: o que é a praxe? A praxe é o momento solene, em que os senhores do terceiro ano se acham no direito de castigar os recém-chegados à universidade por isso mesmo, terem chegado à universidade. Ó, perdão, a praxe é o momento em que se integram os caloiros no espírito académico (o da porcaria constante e do pisar e ser pisado para poder pisar). É também na praxe que se estreitam laços de união entre caloiros e entre estes e os seus “doutores”(e que melhor forma de fazer isso do que obrigá-los a estarem sempre calados e a olharem para o chão?)
Posto isto analisemos o que se passou na praxe sobre a qual eu posso falar realmente, sim, porque eu estive em todas as praxes do meu curso… Não me parece que tenha, efectivamente, feito nada que me ferisse na minha dignidade enquanto pessoa. Até porque nunca o faria, o que quer que acontecesse. Agora, também não vou dizer que foi espectacular, que me diverti imenso, muito menos me senti mais integrado e menos desorientado num mundo completamente novo. A praxe foi aquilo que é suposto, na realidade, ser: um castigo por nos termos esforçado e por termos alcançado um objectivo. Se estou chateado? Não. Se estou arrependido? Não. Como é que eu ia estar hoje a escrever isto se não tivesse dançado o cabaret, andado de mota e gritado, vezes sem conta, “Ó Vanessa, vamos nessa?”, entre outras coisas igualmente boas…
A verdade é que me parece (e agora com conhecimento de causa) demagogia pura que se venha dizer que a praxe foi espectacular, que se adorou ser caloiro, e que só se é caloiro uma vez na vida (snif snif). E também não venham os meus estimados colegas (agora novilhos) dizer que têm orgulho nos doutores pela praxe que lhes deram…
Como é possível que alguém, no seu perfeito juízo, venha dizer que adorou o julgamento e que está muito orgulhosa do curso. Eu nem lá estive, mas não me parece que ser chamado de tudo e mais alguma coisa e terem-me despejado todo o tipo de coisas pela cabeça abaixo seja motivo de orgulho para alguém, ou dignifique de alguma forma o curso. Ter orgulho no curso parece-me, realmente, uma coisa boa, mas é quando se tem orgulho no curso pelas razões certas, e não porque a praxe é boa, ou o julgamento divertido, ou porque somos os que gritamos mais numa guerrita de cursos imbecil.
Mas sim, podem dizer-me: “ó mas não é isso. O julgamento tem uma magia, uma coisa especial.” Aí eu tenho que afirmar o mesmo que uma grande amiga em relação ao traje: "é uma magia que me passa ao lado." É , com certeza, a magia de andar pela lama. Eu prefiro voos mais altos.
A verdade é que isto me parece de gente que não parou muito tempo para pensar no que se passou naqueles “grandes” momentos…
Acho que remato por aqui. Sim, ficou claro que não vou praxar, que não vai haver ninguém a correr de capacete na cabeça em 2007/2008, pelo menos não com um capacete dado por mim. Sim, ficou claro que não vou participar desse grande momento que é a integração dos caloiros. Mas os futuros colegas do primeiro ano terão de mim algo mais importante: respeito, “no matter what”. Porque nunca, nem que seja só por uns dias no início do ano, nós somos mais do que eles.
Não posso deixar de terminar este texto com a frase, sempre bonita: "nós estamo-vos a fazer isto mas é para vosso bem. É para que nunca deixem que alguém vos pise." Pois é o mundo é duro lá fora. Bora, ensinar os caloiros a não se deixarem pisar. Vamos pisá-los nós!
In-útil (ainda, e para o todo o sempre, caloiro)